Apesar de levar vantagem no confronto direto com a França, o Brasil é um verdadeiro freguês da seleção europeia em Copas e jogos oficiais. Superior apenas em partidas de caráter amistoso, o time canarinho tenta quebrar um jejum de 19 anos às 18 horas (de Brasília) desta quarta-feira no Stade de France, palco do vice-campeonato mundial de 1998, um dos capítulos traumáticos do duelo diante dos gauleses.Na França, Mano Menezes deve escalar a equipe com algumas novidades. Titular na Copa do Mundo da África do Sul, o goleiro Júlio César está de volta. No meio-campo, Hernanes, que deixou o São Paulo para defender a Lazio, e Renato Augusto, revelado no Flamengo e atualmente no Bayer Leverkusen, são favoritos para atuar desde o início da partida.
Nascido no dia 8 de fevereiro de 1988, Renato Augusto recebeu a chance entre os titulares como um presente de aniversário. "Eu amadureci bastante e estou num bom momento na carreira. É claro que ainda não é uma certeza que vou jogar, mas estou pronto para essa oportunidade. Se eu jogar cinco ou 90 minutos, para mim a importância será a mesma", declarou.
Empossado após o fiasco protagonizado por Raymond Domenech na África do Sul, o ex-zagueiro Laurent Blanc terá uma nova oportunidade de enfrentar o Brasil no Stade France na medida em que, suspenso, desfalcou a seleção francesa na final de 1998. O técnico iniciou sua trajetória com derrotas contra Noruega e Bielo-Rússia, mas vem de triunfos diante de Bósnia, Romênia, Luxemburgo e Inglaterra.
"Nós somos uma das nações que mais atormentam o Brasil. Estamos jogando contra uma das melhores equipes do mundo, mas vamos entrar com todas as nossas forças", afirmou o ex-zagueiro, de forma respeitosa. "Jogar contra o Brasil é uma honra, um privilégio. Não é sempre que isso acontece e por isso os jogadores vão se doar ao máximo", declarou.
O lembrete de Laurent Blanc na véspera do confronto faz sentido. Em Copas do Mundo, a França tem duas vitórias, uma derrota e um empate seguido de triunfo nos pênaltis. Em jogos oficiais, os europeus têm apenas um tropeço em cinco encontros. A seleção brasileira leva vantagem somente nos amistosos (tem quatro vitórias, três empates e um revés).
O Brasil venceu a França pela última vez no dia 26 de agosto de 1992. Então sob o comando do técnico Carlos Alberto Parreira, o time canarinho bateu os donos da casa no Estádio Parque dos Príncipes por 2 a 0 com gols de Raí e Luís Henrique. Desde então, a seleção virou pentacampeã mundial ao conquistar os títulos de 1994 e 2002, mas acumulou uma série de dois empates e três derrotas contra os gauleses.
Escalado em 1992, Mauro Silva ficou surpreso ao saber que participou do triunfo mais recente contra a França. "Foi a última vitória? Nossa, faz muito tempo", disse o ex-volante à agência. "Esse amistoso de agora tem uma significado enorme, porque a França sempre costuma complicar e não é desde 1998, é desde 1986. Nunca é só um amistoso, porque tudo isso aumentou a rivalidade. Temos que tentar ganhar sempre", afirmou.
Já o ex-lateral Júnior, também presente em 1992, vê semelhanças entre as escolas dos dois países. "Aquele meio-campo de 1986 tinha uma técnica e uma inteligência muito grande, comparáveis às do Brasil de 1982. Desde 1978, a França tem gerações acima da média. O jogo de agora tem uma conotação muito mais importante do que o de 1992, porque o Mano está formando uma nova seleção e fazendo experiências. Não espero uma repercussão negativa em caso de derrota, mas vai continuar aquela história de resultados negativos contra os franceses".
Diante da França, o Brasil viveu algumas de suas maiores tragédias futebolísticas, e a torcida elegeu vilões que convivem com a pecha até hoje. Nas quartas de final de 1986, após Zico desperdiçar um pênalti no tempo normal, Sócrates e Júlio César fizeram o mesmo nas cobranças. No entanto, o lance mais lembrado é a infelicidade do goleiro Carlos no chute de Bruno Bellone.
Na final da Copa de 1998, o Brasil, então defensor do título, perdeu por 3 a 0 para os anfitriões após o centroavante Ronaldo sofrer uma convulsão na concentração em um episódio ainda não esclarecido. Oito anos depois, na Alemanha, o meia Zinedine Zidane voltou a fazer a diferença e deu a assistência para o atacante Henry marcar o único gol das quartas de final, enquanto o lateral Roberto Carlos arrumava suas meias.
Para completar a série de insucessos, o Brasil perdeu para a França na decisão da medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de Los Angeles-1984. Os jogadores profissionais atuaram de forma inédita no torneio, desde que não tivessem participado de Copas do Mundo. O técnico Jair Picerni apostou em uma base do Internacional e perdeu a final por 2 a 0 com nomes como Dunga e Mauro Galvão em campo.
Para vencer seu único jogo oficial diante da França, o Brasil precisou de Pelé e Garrincha, que jamais foram derrotados juntos com a camisa da seleção. Na semifinal da Copa da Suécia, o time então comandado por Vicente Feola eliminou a equipe do artilheiro Just Fontaine ao vencer por 5 a 2. Na época com 17 anos, Édson Arantes do Nascimento marcou três gols.
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